quarta-feira, 15 de março de 2017

Associação

O cansaço me cansa
mais que o medo do fracasso

O compasso de uma dança
que me distancia do abraço dos seus braços

A ternura se encarrega
da mentira e da tortura

A tontura que me cega
outros chamam de loucura

A mente que flutua
entre intervalo e melodia

O grafite que improvisa
a verdade e a fantasia

Palavras óbvias que se encaixam
pela associação rítmica e precondia

Uma rapsódia que extravasa
os anseios de uma fala rasa, temerosa e vazia

sábado, 7 de janeiro de 2017

Sorte

      Às vezes é assim que eu lido com as coisas. Eu imagino que a dor não é minha. A dor pode pertencer a mim, mas quem sou eu que não toda a humanidade? Individualmente, a dor pertence ao ser humano que sou, mas enquanto ser humano não posso ser menos do que o ser humano enquanto espécie. Quero dizer, minha dor individual e banal nada significa perante a minha existência enquanto cada alma que já passou por este planeta. "Eu" não me restrinjo à pessoa que sou, mas a tudo o que posso ser ou poderia ter sido. É questão de sorte ou acaso que "Beatriz" não seja o nome da minha vizinha. Eu poderia ter sido qualquer outra pessoa com tanta certeza quanto sou a mim mesma. Se "ser" é um verbo, então não é natural que possa ser qualquer outro? Sendo a todos ao mesmo tempo, minhas dores tornam-se inexistentes no momento em que se tornam desconhecidas. Não era de se esperar, então, que a dor de todos os outros "eu" aflorassem em conjunto, engrossando o sofrimento? Creio que não, pois a dor só é compreensível quando sentida individualmente, restringindo-se ao contexto daquele produto de histórico pessoal. Quando você é todos os outros, a dor existe, mas não pode ser sentida, por mais que se tome consciência dela mais do que nunca. Você toma consciência de uma dor gigantesca, holística, mas se torna imediatamente incapaz de senti-la. Ou melhor, você sente sim. Mas "sentir" ganha um novo significado. Tudo ganha um novo significado. Eu poderia dizer que o que era "sofrer" torna-se "prazer", mas até esses dois conceitos tem seus significados reinventados. Não é "diferente". É o mesmo que você sempre sentiu, só que em proporções nunca antes imaginadas. E é assim, imaginando o que não pode ser imaginado que eu lido com as coisas.

 (Não sei ao certo quando escrevi esse texto, mas o encontrei perdido em uma agenda velha. Achei digno de registro)

(A despeito do último post, queria fazer um adendo. 2016 foi uma "eterna férias" que durou 6 meses. O segundo semestre de 2016 foi uma verdadeira loucura. E acabou tudo bem, talvez da melhor forma possível. Começo 2017 bem feliz!)

sábado, 18 de junho de 2016

O que ando fazendo nessa eterna férias chamada 2016?

Eu realmente amo o meu blog. Eu já tive vários, mas eu amo esse em especial. Eu amo as cores, o conteúdo aleatório que vem se acumulando desde 2009, a sala dos amigos imaginários, o nome, a lembrança do nome antigo (Não Sou Um Bolinho de Arroz, alguém lembra? Claro que não), os blogs fantasma do blogroll, os áudios dos meus improvisos no piano, o registro bagunçado e espaçado da minha vida. Tem posts aqui que são uma visita ao âmago do meu ser. É sério, por mais ridículo que isso soe. E eu realmente queria voltar a usar esse espaço. Tem um post aqui chamado 2016 que eu deveria reler todos os dias até 2016 acabar, feito aquele cara do filme que sofre de perda de memória recente e precisa reler seu diário todos os dias pra se situar. Enfim, essa sou eu recomeçando. De novo.


2015 foi o ano mais produtivo da minha vida até agora. Talvez um dia eu faça um post sobre isso, tal qual a retrospectiva 2013. Mas não hoje. Hoje vou falar sobre 2016, o ano menos produtivo da minha vida. Até agora.


A despeito deste ser um post sobre não-produtividade, a verdade é que eu queria mostrar para mim mesma que meus dias tem sido sim recheados de pequenos avanços. Tenho lido bastante e finalmente estou estudando o que sempre quis estudar: Psicologia. 
 

Comparado à empolgação que senti no primeiro ano do curso, é natural que esse aqui pareça meio estagnado. Mas a verdade é que continuo aprendendo lições de vida valiosas a cada dia, que é o que fez com que eu me apaixonasse pela profissão em primeiro lugar. Ainda que não acredite que vá me tornar uma behaviorista, aprendi com Skinner a repensar todas as minhas motivações. Uma vida orientada por reforçadores positivos é mais saudável do que uma orientada pela fuga da culpa.


Tenho aprendido a permitir que as coisas me inspirem. Não resistir. Simplesmente me entregar à inspiração quando ela me encontrar. É, pois é, sempre achei plantas dentro de casa algo bonitinho.
 
 

Dei uma arrumada no meu quarto, coisa que vinha adiando desde que voltei para cá. Chamo essa escrivaninha de "cantinho da produtividade". Tudo o que está nela me lembra de um período particularmente produtivo da minha vida. E organizar o espaço foi o primeiro passo para resgatar toda essa motivação.


Falando em resgatar, voltei a dar uma chance a certas crenças antigas que se viram abandonadas antes mesmo de terem tido a chance de se firmar. Tenho tentado ler bastante também.


Academicamente falando, não tenho muito do que me queixar. Finalmente consegui estabelecer uma rotina de estudos que dá certo. Fiz todos os trabalhos com antecedência, o que me garantiu um final de semestre muito mais leve.


Uma coisa meio boba é que tenho gostado muito dos tons amarronzados/avermelhados da minha casa. Digo, voltei a apreciar essas pequenas coisas. A forma como a luz entra no cômodo. Um ambiente reconfortante. Estou reaprendendo a me sentir confortável, ou a me permitir relaxar quando tá tudo certo.


Minha autoestima também anda melhor. Um novo cabelo, novos penteados, novas roupas. Pessoas novas, programas novos. Superando pequenos traumas e complexos. Aprendendo a aceitar afeto e a desejar companhia. Também tenho percebido novas inseguranças, o que é de se esperar. A novidade é que agora elas vem acompanhadas da consciência de que são superáveis e parte da vida. Aprendendo a olhar para mim mesma com olhos menos críticos e mais realistas. Não posso ser justa com as pessoas se for uma carrasca comigo mesma.

Enfim, eu realmente gosto desse espaço. Vou tentar me sentir confortável aqui mais vezes.